5 x favela: do Cinema Novo ao cinema contemporâneo

   A pergunta é:  quando esse "outro", ainda tão exótico nas imagens do cinema e TV brasileiros se converterá em mais um de nós? Para o turista, o exótico nasce de uma modernidade mal concluída, de falsas imagens, que suscitam a nostagia de um tempo bárbaro, porém mais simples, de mais alegria, samba e futebol, apimentadas por vestígios de uma barbárie sensual e paradisíaca. Para o espectador médio brasileiro, o exótico relaciona-se ao medo e à violência, às inúmeras ameaças à propriedade privada que ele representa. Ambos exotismos, no entanto, se encontram quando constatamos o desconhecimento que existe, tanto por parte do turista, quanto de nós brasileiros, no que se refere à favela e a seus habitantes. Neste momento, a falta de conhecimento é preenchida pelos estereótipos, que falam mais de nossa própria ignorância do que propriamente dos sujeitos a que se referem. E mais uma vez, na história deste imenso continente Latino-Americano, incluindo também o Caribe, repetimos os mesmos procedimentos do colonizador e traduzimos o "outro" a partir de nós mesmos; o colocamos frente ao nosso próprio espelho, analisando esta figura que nos parece tão diferente, segundo nossos próprios valores e parâmetros culturais, forjando imagens, que nem sempre se encaixam muito bem em nossas próprias formas. Mas, o que fazer, se não conseguimos ir além de nós mesmos? Se nossa visão costuma ser tão pequena e limitada? Além disso, buscar conhecer outras formas de julgamento, de crenças e valores é muito arriscado, na medida em que o "outro" pode falar muito mais de nós mesmos do que imaginamos. É melhor deixar como está, vivendo assim, na medida de nossa imagem especular.
    Vale ressaltar que a ignorância no que se refere a este "outro" não é inerente aqueles que não vivem na favela. Existe a ignorância de nós mesmos, que pode afetar a qualquer um, favelados e não-favelados. Refiro-me a interiorização de estereótipos, ao aprendizado diário de que só os valores do mundo branco são legítimos, de que se queremos "ser alguém" na vida devemos cultuar seus deuses, sua comida, bebida, seus conhecimentos e costumes. Neste sentido, a educação surge como um fator fundamental, como um caminho imprescindível para o alcance da cidadania, seja para os negros ou para não-negros. Somente a conscientização, o conhecimento de nossa história, de suas engrenagens, enfim, daquilo que permanece invisível por trás dos imaginários, é que nos levará a ter uma visão mais real e autêntica de nós mesmos e do "outro".
    No entanto, mais uma vez Schwarz, especialmente em  "Nacional por subtração", dá o tom da posição periférica frente às irradiações dos centros hegemônicos. Sejam elas de ordem externa ou interna as relações de poder serão sempre assimétricas, exigindo daqueles que estão sempre "perdendo o bonde da história", um esforço redobrado por manter-se atualizado com o mundo hegemônico. Como aponta o autor, isto significa que, mal amadurecemos as modernas teorias que nos chegam de fora, já somos obrigados a descartá-las como ultrapassadas, iniciando uma nova tentativa de tradução, em um processo que parece nunca ter fim. E tanto no que se refere ao mundo teórico-acadêmico, quanto a conjunturas sócio-culturais, o diagnóstico acima referido continua sendo válido.
    Quanto ao primeiro, temos os Estudos Culturais, que vieram reivindicar um novo status para produções, que representam de forma legítima grupos até então invisíveis em nossas instituições acadêmicas, ou seja, que até então se mantinham à margem do mundo ocidental. As figuras de Edward Said, Stuart Hall, Glória Anzaldúa, são grandes representantes desta nova vertente teórica. Já o novo contexto sócio-cultural que estamos vivendo,  nos indica o predomínio da cultura audiovisual e midiática sobre a cultura letrada, no qual o significado de cidadania de alguma forma se entrecruza com a visibilidade proporcionada, sobretudo pela televisão, mas também pelas rádios, pelo cinema e pelo teatro. Ainda seguindo as considerações de Schwarz, gostaríamos de chamar atenção para o fato de que não se trata de uma mera passagem, que se assim o fosse, indicaria uma mudança de caráter natural de uma fase para outra, mas de um salto em direcão a uma nova etapa caracterizada por uma forte demanda imagética.
    Todo salto implica a presença de uma espécie de "gap", de vazio, que deixamos para trás; um hiato, que é também a representação da diferença, daquilo que marca a distância cultural que separa os centros de suas margens e vice-versa. Ainda que invisível, este vazio de alguma forma estará sempre presente e no caso ao qual nos refirimos aqui, o salto da cultura letrada para a midiática, ele está diretamente relacionado à falência de nosso sistema de ensino, à ausência de uma educação, como diria Paulo Freire, para a liberdade de pensamento, de expressão, voltada para o pensamento crítico, e assim, avesso às inúmeras descontextualizações que caracterizam a nossa mídia.